Gram Parsons, por Keith Richards

Existia uma coluna na revista RollingStone (2004) chamada  “The Immortals – The Greatest Artists of All Time”. Os caras pegaram 100 grandes nomes da história da música e cederam o espaço para outros grandes nomes comentarem sobre os respectivos artistas escolhidos. Por sorte, Keith Richards ficou com o número 87, de Gram Parsons.  Abaixo segue a tradução.

Gram Parsons, por Keith Richards.

Como eu conheço o blues, Gram Parsons conhecia a música country  – cada nuance, cada bela canção que já foi escrita. E ele podia expressar tudo – a música de Nashville e Bakerfield, Califórnia, as coisas do Texas – em seu jeito de cantar e escrever. Também tinha inteligência e honestidade. Este é o tipo de cara que eu gosto de convidar pra sair. Também adorava ficar chapado. Naquele tempo, era uma vantagem.

Conheci Gram em 1968, quando os Byrds estavam aparecendo em Londres – Eu acho que foi em um clube chamado Blazes. Eu conhecia os Byrds do Mr. Tambourine Man; Os Stones trabalharam junto com eles na Califórnia. Mas quando eu os vi na Blazes com Gram, pude ver que aquilo era uma mudança radical. Fui até o backstage e de lá saímos juntos. Aí os Byrds vieram até Londres novamente, no caminho da turnê que passaria pela África do Sul. Disse algo do tipo “Bicho, nós não vamos lá.” As sanções e os embargos aconteciam. Ele saiu dos Byrds, no mesmo momento. Claro, ele não tinha lugar pra ficar, e veio comigo.

Basicamente, saímos juntos, como músicos fazem. Gastávamos horas e horas no piano trocando ideias. Gram amava as canções de Felice e Boudleaux Bryant – as coisas que eles fizeram pros Everly Brothers. Nós dois amávamos aquela melancolia, coisa de solitário mesmo. Estávamos sempre procurando a próxima canção de amor, procurando soltar aquela corda extra do coração.

Keith and Gram

Keith and Gram

Como um compositor, Gram trabalhou tanto quanto eu, ou seja, pegava uns pares de acordes, começava com a cantoria e via até onde isso poderia ir. Diferente de estar sentado por aí com um pedaço de papel e uma caneta, tentando fazer as coisas se encaixarem, se você apenas assume o microfone, as coisas vêm para você. Linhas vêm de uma forma que você nunca sonhou, porque elas têm de vir naquele segundo exato. Gram gostava de fazer aquilo, mas ele também trabalhou duro – mais duro que do eu jamais trabalhei – moldando suas canções.

É difícil pra mim escolher uma de suas canções como a favorita. “Sin City”, do primeiro álbum dos Flying Burrito Brothers, é demais. Eu amo “I Can’t Dance”, do disco GP. Mas você nunca terá um retrato completo dele com apenas uma ou duas canções.

Mick e Gram nunca se toparam, principalmente pelo fato do Stones ser uma coisa tribal. Ao mesmo tempo, Mick estava ouvindo o que Gram fazia. Mick tem orelhas. Às vezes, enquanto fazíamos o Exile on Main Street na França, nós três passávamos horas tocando algumas músicas do Hank Williams enquanto esperávamos o resto da banda voltar. Gram tinha o maior repertório de músicas country que você pode imaginar. Nunca lhe faltavam canções.

On tour with stones

As drogas e a bebida – ele não era pior nem melhor que o resto de nós – só cometeu um erro fatal tomando aquela dose depois de estar limpo, pensando que aguentaria da mesma forma que aguentara antes. E foi uma puta dose. Mas ele não entrou nas drogas por nossa causa. Ele conhecia essas coisas antes de sermos apresentados.

Eu acho que ele estava começando a dar suas passadas largas quando morreu. Seu material atual – o número de discos que gravou e vendeu – era mínimo. Mas seu efeito na música country foi enorme. É por isso que estamos falando dele agora. Mas não podemos saber o real impacto que causaria. Se Buddy Holly não tivesse pego aquele avião, ou Eddie Cochran não tivesse virado na esquina errada, pense que tipo de coisa nós poderíamos esperar, escutá-las agora seria fenomenal.

De um jeito, é um tipo de amor perdido. Gram era tudo que você queria em um cantor e um compositor. Era divertido tê-lo por perto, era ótimo tocar com ele. E aquele filho da puta podia fazer garotas chorar. Nunca vi outro homem fazer as garçonetes velhas do clube Palomino em Los Angeles  chorar como ele fez.

E estava tudo no homem. Sinto muita falta dele.

Keith Richards,15 de abril de 2004

link: http://www.rollingstone.com/news/story/7249933/the_immortals__the_greatest_artists_of_all_time_87_gram_parsons

traduzido por hpompermaier para Folklore

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