Entrevista com Pete Seeger

Pouco se fala de Pete Seeger por aqui. Sabe-se muito pouco sobre um dos maiores compositores americanos – que influenciou centenas de artistas consagrados nos anos 60. Por isso, resolvemos traduzir uma ótima entrevista feita pelo jornal San Francisco Chronicles na semana passada, dia 13 de setembro. Segue o texto abaixo:

Pete SeegerPete Seeger aos 90, “Sem mais prêmios, por favor”

Pete Seeger, comunista convicto e inimigo do estado, se apresentando na cerimônia de inauguração do presidente dos EUA? Com 90 anos, ele viveu pra ver e diz nunca ter imaginado que tal situação poderia acontecer.

“Absolutamente não imaginava. Antes, eu até tinha ganhado um prêmio Kennedy que me possibilitou ir até a Casa Branca cumprimentar o presidente. Entretanto, existiam muitas coisas importantes que queria ter dito a ele – e não pude dizer naquela ocasião,” diz Seeger pelo telefone de sua casa, localizada no vale do Rio Hudson.

Esta é uma temporada de prêmios para o velho tocador de banjo. Depois de ter aparecido com Bruce Springsteen, no Lincoln Memorial, antes da inauguração de Obama, Seeger esteve em uma festa de aniversário na Madison Square Garden tocando com Springsteen, Joan Baez, John Mellencamp, Dave Matthews, Emmylou Harris e outros, um evento de gala filmado e transmitido pela PBS.

Ele foi o assunto de um documentário recente, “The Power of Song”, tocou como a principal atração do festival de Jazz de New Orleans deste ano,  e também se apresentou no aniversário de 50 anos da edição do festival de folk de New Orleans. Na semana do dia do trabalho, recebeu o prestigioso Prêmio “Gish Award” –  os ganhadores anteriores foram Robert Redford, Bob Dylan, Arthur Miller e Frank Gehry –  cujo  vencedor leva duzentos mil dólares pra casa. Apareceu também no Masonic Auditoriom com os filhos e netos de seu velho parceiro Woody Guhtrie, e dois dias depois se apresentou no Monterey Jazz Festival.

Seeger não é deslumbrado. Tende a ver esses prêmios como imposições. Ele está mais para um velho desconfiado do que para o perfil tradicional de um doce avô.

“É o período mais difícil que eu e minha mulher já vivemos”, diz ele. “O carteiro vem mais ou menos com um alqueire de cartas. O telefone toca a cada cinco minutos. Eu sabia que seria um problema, mas não dimensionava o tamanho. Não temos tempo livre. Agora estou mandando cartas padrão. ‘Dear Dash’ – e escrevo seu nome – “Obrigado pela sua carta, mas a carta formal é a única forma viável, não tenho tempo para escutar o CD que você mandou para ouvir, o livro para ler, o DVD para assistir e o convite para receber algum prêmio. É mesmo meio louco.”

“Ele odeia”, diz Tao Rodriguez, de 37 anos e seu primeiro neto – que viaja e toca com seu avô desde que tinha 14 anos de idade. “Eu tento deixar ele longe dessas coisas o máximo que posso. Alguém quer combinar um horário com ele, ele diz, “Por favor, eu já tenho muitos horários a cumprir – por que eu precisaria de mais um?”Ele é mídiafóbico.

Em sua apresentação em São Francisco, Seeger fez parte da Guthrie Family Tour, um evento musical que traz mais de três gerações dos Guthries cantando as canções do patriarca da família, Woody Guthrie. “É a primeira vez que nós fazemos isso desde 1984”, diz a neta mais nova, Sarah Lee Guthrie, direto de sua casa no oeste de Massachussets. “Eu tinha 5 anos e nunca vou esquecer. Quando meu pai (Arlo, filho de Woody) foi para a turnê nos anos setenta e oitenta, não existiam mulheres ou crianças na estrada. Nem ao menos cachorros.”

Sem respostar curtas

Com Pete Seeger, até uma questão do tipo “Como vai você?” é totalmente explorada.

“Na maior parte dos dias minha memória não é boa como antes”, diz ele, “então estou esquecendo coisas o tempo todo. Pelo outro lado, a vida continua fascinante e acho que a luta para ver se existirá raça humana nos próximos cem anos é a mais importante luta do mundo. A chance é de 50%, você sabe. Entretanto, eu confesso que estou um pouco mais otimista do que como estava depois de Hiroshima. Eu disse que tínhamos chances de 50%, mas disse principalmente para encorajar as pessoas que seus pequenos grãos de areia podem ser o necessário para direcionar o mundo em uma direção correta. Eu acho que ainda digo isso pela mesma razão. Sessenta anos atrás eu pensei que, em vinte ou trinta anos, algum idiota iria soltar uma daquelas grandes bombas e mais bombas viriam. Se não fôssemos mortos, seríamos envenenados pela desavença. Mas uma coisa boa foi acontecendo depois da outra. O movimento civil tomou seu lugar. O movimento feminista está muito bem e colhendo seus frutos. A coisa mais importante é que não são centenas, mas, literalmente milhares de pequenas coisas boas acontecendo em nosso país. Um dos meus slogans, para repetir o que o grande biologista René Dubos disse é: “Pense globalmente, aja localmente.”

Muitos erros

Pete Seeger“É verdade que as pessoas da minha idade cometem muitos erros e naturalmente se tornam pessimistas. Eu cometi muitos erros, um grande número deles. Eu estive por aí cantando em algum lugar e deixei minha esposa cuidando dos três bebês, sozinha.  Se os cachorros latissem, ela não saberia se era algum homem que poderia causar problemas. Até nós conquistarmos um patamar decente e termos dinheiro para viver bem, ela caminhava 150 jardas desfiladeiro abaixo com um bebê nos braços e outro agarrado em sua blusa, e ainda carregava um balde de água para cozinhar e lavar. Ela é uma heroína. Cometi muitos erros, milhares deles.”

“Do outro lado, tentei estar bem de saúde. Aprendi em um provérbio Árabe quando estive no Líbano uma vez. Árabes se orgulham que o mundo usa números arábicos. Nós não usamos numerais romanos ou chineses. Nós usamos numerais arábicos. Se você tem boa saúde, coloque o número um. Se tem uma família, coloque um zero. Quão sortudo você é. Se você tem um terreno, coloque outro zero. Família, terreno – que mais você poderia querer? Bem, se você tem uma boa reputação, coloque outro zero. Você tem tudo. Mas tire o número um, com quê você fica? Três zeros. Boa história para as pessoas saberem. Eu conto ela sempre onde passo.”

“Se não fosse pelo meu estado mental… Eu estou em melhores condições que a maioria das pessoas de 90 anos porque faço muitos exercícios. Nós aquecemos nossa casa com madeira, então estou sempre cortando e dividindo lenha. Minha ideia de alguns bons minutos é olhar pela minha janela e ver alguns pedaços para cortar – e vou lá e corto. Está em nosso DNA gostar de golpear. Há três milhões de anos estamos andando sob dois pés. Foi quando começamos com clubes de dança, a matar animais e matar nossos inimigos. Não é acidental que esportes como golf e baseball são populares no mundo todo.”

Seeger não se importa de saborear a ironia de ter saído da lista negra e ter ido parar na lista vip. “Eu estive na lista negra na maioria dos anos 50 e grande parte dos 60. De certa forma, ainda estou nela. Não me oferecem programas de televisão, coisas desse tipo,” diz ele. “Para que servem, eu não sei. Voltando no que chamo de década quente (50’s), era comum. Mas a coisa engraçada é que não me importo. Não gosto de cantar em boates. Não gosto de cantar no rádio e na televisão porque geralmente eles me dizem o que querem que eu cante.”

Ele conta uma história sobre seu aparecimento no “Today show” quando Barbara Walters ainda estava no programa. Ele preparou o que chamava de “uma feliz peça de banjo”, e tinha uma segunda canção que queria cantar, “Garbage”, um protesto escrito em 1969 pelo compositor Bill Steele.  A canção zomba de assuntos ambientais, mas Seeger adicionou um quarto verso nos anos 70 que estende a premissa da canção para uma denúncia feroz contra as corporações e a ganância capitalista. Ele recordou a conversa que teve com o produtor antes de cantar “Garbage”

“ ‘Pete, é meio cedo para isso. Tem algo mais?’ ”

Pete cantou, “When te revolution comes to my country…”

“ ‘Pete, você tem alguma outra coisa?’ ”

“Walkind down death row…”

” ‘Bem, Pete, eu acho que ficamos com ‘Garbage’. O estúdio todo veio abaixo. Os câmeras disseram ‘Sim, melhor ficarmos com Garbage.’ ”

.

No auge de seus 90 anos, Seeger nos presenteia com uma entrevista esclarecedora. Fica a dica, é um bom aperitivo para começar a compreender uma das maiores cabeças pensantes da música americana.


link direto:http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/c/a/2009/09/11/PKO919ICCL.DTL


Postado por hpompermaier para Folklore

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