Baú II

Mais uma nota retirada do baú de Bob Dylan. Um pequeno texto-resposta criado para a revista Sing Out! (out/nov 1962), onde Dylan fala sobre Blowing in the Wind para Gil Turner. Vale a reflexão:

“Não há muito o que eu possa dizer sobre essa canção, exceto que a resposta está flutuando no vento. Não está em um livro ou filme ou programa de T.V. ou grupo de discussão. Rapaz, está no vento – e flutuando no vento. Muitas dessas pessoas bem informadas dizem  por aí onde está a resposta, mas eu não acreditaria nisso. Eu continuo dizendo que está no vento, e como um pequeno pedaço de papel, terá de aparecer em algum momento…. O único problema é que ninguém segura a resposta quando ela aparece, então muitas pessoas deixam de conhecê-la… e aí ela volta a voar novamente. Eu ainda digo que os maiores crimes são aqueles onde as pessoas viram suas cabeças quando veem algo errado – e sabem que está errado. Tenho só 21 anos e já sei que muitas guerras aconteceram. Vocês, pessoas maiores de 21, são mais velhas e mais espertas.”


postado por hpompermaier para a Folklore

Bluegrass na Padre Chagas

Um sábado de sol inesquecível para a Folklore. O Conjunto de Bluegrass Porto Alegrense participou da festa de reabertura da loja no último sábado, dia 5 de dezembro. O show aconteceu no coração da Padre Chagas, o palco da Folklore teve o privilégio de receber os fellows do Bluegrass e a Padre Chagas se tornou por alguns instantes a Broadway Street de Nashville, TN. Muito obrigado, garotos!

Também aconteceu o lançamento da biografia em quadrinhos do Mr. Johnny Cash, que está a venda na loja por R$ 44,00.

E aproveitamos para celebrar a mais nova integrante da família Folklore, Luiza Só, que em breve entrará no estúdio da Folklore Records para gravar seu primeiro EP. Confira aqui.

Reabertura Folklore

A loja conceito da marca Folklore reúne tudo que tem jeitinho de artefato à moda antiga. A idéia é resgatar bons valores, boa música e claro, roupas eternas. Tudo isso no coração da Padre Chagas.Para comemorar as novos feitos da marca, este sábado rola um encontro de old fellows pela calçada.

A frente da loja vira palco e apresenta o som orgânico da banda Bluegrass Porto-Alegrense,durante a festa, é aberta também a exposição das fotos de Dudu Carneiro para Rödel-LA, capturado nas terras distantes da Islândia.O fotógrafo acompanhou os criadores Helen e Guilherme durante o Iceland FashionWeek 2009.

Além disso tudo, novidades do alto verão da marca Folklore, AMP, Regentag e exclusividades Rödel-LA. Neste sábado. 05 de Dezembro, a partir das 17h.

Hank Williams: Honky Tonky

A BBC já produziu documentários incríveis sobre a história da música americana,  melhores até do que os produzidos na América. “Hank Williams: Honky Tonky” conta como foram os primeiros passos, a vontade de tocar e aprender,  o início do estrelato, os problemas com a bebida, enfim, resume em imagens a trajetória do maior poeta da música country. Quem gosta de Hank Williams não pode perder a oportunidade de conhecer a sua história. A história de um mito que transformou os medos e receios comuns em canções.

PS: A parte 3 do documentário não está no youtube, se alguém encontrar ou tiver esse material e puder colaborar e compartilhar, agradecemos!

postado por hpompermaier para Folklore

Gene Autry e os 10 mandamentos

Gene Autry foi o que podemos chamar de lenda. O cara fez escola no cinema western, compôs dezenas de canções tradicionais que foram regravadas por centenas de artistas,  teve um programa na CBS, comprou um time de baseball e quando morreu, em 1998, fazia parte da lista dos 400 homens mais ricos do mundo. É simplesmente uma sumidade na história do western e da country music. A curiosidade fica por conta dos dez mandamentos de um bom cowboy, proferidos por Autry durante um de seus programas de rádio em 1950:

1 – Nunca atire primeiro, brigue com um homem pequeno ou tire alguma vantagem injusta de uma situação.
2 – Nunca confie demais nas palavras de um homem ou faça confidências ao mesmo.
3 – Conte sempre a verdade.
4 – Seja gentil com as crianças, os idosos e os animais.
5 – Nunca advogue ou defenda causas intolerantes raciais ou religiosas.
6 – Ajude pessoas angustiadas.
7 – Seja um bom trabalhador.
8 – Mantenha-se livre em pensamento, livre no que fala e faz, e livre de hábitos pessoais
9 – Respeite as mulheres, seus pais e as leias de seu país.
10 – Seja patriota.

gene

Que tal? Um bom cowboy, não?


postado por hpompermaier para Folklore

Baú

Vamos transcrever aqui alguns pequenos retratos do artista Bob Dylan. Matérias de revistas antigas, transcrições de gravações caseiras, entrevistas em programas de rádio – antes e depois da fama. Porções de pequenos registros que ajudam a compreender a evolução do pensamento e o dia-a-dia de uma das maiores referências musicais do século passado.

Começamos com a transcrição de uma fita, gravada em 1958, 3 anos antes de Bob lançar seu primeiro disco. Uma despretenciosa conversa entre ele e seu amigo de infância, John Huckley. A gravação mostra os dois tagarelando enquanto gravavam uma canção  entitulada “Hey Little Richard”. Bob tinha 17 anos.

VERÃO DE 1958

- Quarto de Bob Dylan, com John Huckley, Hibbing, Minessota

FONTE: The Bringin It All Back Homepage


- “Little Richard.

Oh, Little Richard”


BD: É a sua vez de cantar agora…

BD: Isso é Little Richard (imita gritos de multidões enlouquecidas no microfone)… Little Richard é muito expressivo…

JB: Você acha que cantar é só pular por aí e gritar?

BD: Você tem que ter expressão…

JB: Johnny Cash tem essa expressão.

BD: Não há expressão. (cantando em tom baixo e lento no microfone) “I met her at a dance St. Paul Minnesota…I walk the line, because you’re mine, because you’re mine…”

JB: Você está fazendo errado –

(Corta a fita)

JB: Qual é o melhor tipo de música?

BD: Rhythm and Blues

JB: Diga suas razões em menos de 25 minutos.

BD: Ah, no Rhythm and Blues você vê uma coisa que não pode explicar. Quando você ouve uma canção de Rhythm and Blues – quando você ouve uma boa canção de Rhythm and Blues, ela te pega pela espinha…

JB: Whoa-o-o!

BD: …quando você escuta uma canção como essa. Mas quando você ouve Johnny Cash, o que você quer fazer? Você quer sair, você quer, você – quando você ouve uma boa canção de Rhythm and Blues você quer chorar…você quer chorar quando ouve algo desse tipo.

(corte na gravação)

(volta os dois cantando)

“Well, buzz buzz buzz honey bee

_____________I ever heard

__________________Darling

And the sweetest sound I ever heard

Well___the beuty of the red red rose

The beauty of the skies of blue

The beauty of the evening sunset here

Ain’t but the beauty of you-u-uu

Honey, honey, honey comb

The beauty of the grapes on the vine

_____________________silence

And I woke up and said you was mine”

BD: (Indecifrável)

JB: Escute, você precisa fazer isso um pouco mais rápido. Quero dizer, estou tentando cortar uma gravação rápida aqui, entende?

BD: Não posso ajudar.

JB: Sei que a música não é lenta, mas também não pode ser rápida demais.

BD: Do que você está falando, rapaz, está bastante rápida!

JB: Não, não está.

BD: Isso vende – Isso vende (faz sinal de dinheiro com a mão) vende muito – dez milhões em uma semana! “Weeeeeeeeel”! (toca uma nota no piano)

JB: O que você está tentando fazer com um “Weeeel” desse tipo? Quero dizer…

BD: Bem, essa é uma nova canção, e estou começando outra nesse momento.

(corta a gravação)

(Entre o diálogo dos dois aparece uma gravação de Elvis cantando Blue moon..termina a música e segue a conversa)

BD: Sim, ah, Ricky Nelson. O Ricky Nelson é outro desses caras. Veja Ricky Nelson, Ricky Nelson –

JB: Ricky Nelson está fora de questão.

Ricky Nelson

Ricky Nelson

BD: Ele copia o Elvis Presley! Sim, perfeitamente…

JB: Ele não consegue fazer como o Elvis.

BD: Bem, ele não pode cantar mesmo… Ricky Nelson. Então nós devemos esquecê-lo. Veja, quero dizer, você percebe quando escuta canções como dos The Diamonds. The Diamonds são muito bons, estão na rua e são muito populares, disco gravado, você sabe.  Eles são grandes estrelas populares mas de onde, de onde eles tiram todas essas canções? Você sabe de onde eles tiram as canções, eles tiram as canções de pequenos grupos. Eles copiam pequenos grupos. A mesma coisa com Elvis Presley. Elvis Presley, quem ele copiou? Ele copiou Clyde MacPhatter, ele copiou Little Richard…

Clyde McPhatter

Clyde McPhatter

JB: Espera um minuto, espera um minuto!

BD:…ele copiou os Drifters.

JB: Espera um minuto, nomeie, nomeie 4 canções que Elvis tenha copiado desses caras, desses pequenos grupos.

BD: Ele copiou todas as canções do Little Richard.

JB: Como quais?

BD:Rit It Up”, “Long Tall Sally”, “Ready Teddy”, err – qual é a outra…

JB:Money Honey”?

BD: Não, Money Honey ele copiou do Clyde McPhatter. Ele copiou “I Was The One” – copiou dos Coasters. Ele copiou, ah, “I got a Woman” do Ray Charles.

JB: Er, veja, aquelas canções foram escritas pra ele.

(corta a gravação)

BD: Rhythm and Blues… Quando você ouve uma canção do velho Rhythm and Blues você quer chorar…

dylanyoung

postado por hpompermaier para Folklore

Gram Parsons, por Keith Richards

Existia uma coluna na revista RollingStone (2004) chamada  “The Immortals – The Greatest Artists of All Time”. Os caras pegaram 100 grandes nomes da história da música e cederam o espaço para outros grandes nomes comentarem sobre os respectivos artistas escolhidos. Por sorte, Keith Richards ficou com o número 87, de Gram Parsons.  Abaixo segue a tradução.

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Gram Parsons, por Keith Richards.

Como eu conheço o blues, Gram Parsons conhecia a música country  – cada nuance, cada bela canção que já foi escrita. E ele podia expressar tudo – a música de Nashville e Bakerfield, Califórnia, as coisas do Texas – em seu jeito de cantar e escrever. Também tinha inteligência e honestidade. Este é o tipo de cara que eu gosto de convidar pra sair. Também adorava ficar chapado. Naquele tempo, era uma vantagem.

Conheci Gram em 1968, quando os Byrds estavam aparecendo em Londres – Eu acho que foi em um clube chamado Blazes. Eu conhecia os Byrds do Mr. Tambourine Man; Os Stones trabalharam junto com eles na Califórnia. Mas quando eu os vi na Blazes com Gram, pude ver que aquilo era uma mudança radical. Fui até o backstage e de lá saímos juntos. Aí os Byrds vieram até Londres novamente, no caminho da turnê que passaria pela África do Sul. Disse algo do tipo “Bicho, nós não vamos lá.” As sanções e os embargos aconteciam. Ele saiu dos Byrds, no mesmo momento. Claro, ele não tinha lugar pra ficar, e veio comigo.

Basicamente, saímos juntos, como músicos fazem. Gastávamos horas e horas no piano trocando ideias. Gram amava as canções de Felice e Boudleaux Bryant – as coisas que eles fizeram pros Everly Brothers. Nós dois amávamos aquela melancolia, coisa de solitário mesmo. Estávamos sempre procurando a próxima canção de amor, procurando soltar aquela corda extra do coração.

Keith and Gram

Keith and Gram

Como um compositor, Gram trabalhou tanto quanto eu, ou seja, pegava uns pares de acordes, começava com a cantoria e via até onde isso poderia ir. Diferente de estar sentado por aí com um pedaço de papel e uma caneta, tentando fazer as coisas se encaixarem, se você apenas assume o microfone, as coisas vêm para você. Linhas vêm de uma forma que você nunca sonhou, porque elas têm de vir naquele segundo exato. Gram gostava de fazer aquilo, mas ele também trabalhou duro – mais duro que do eu jamais trabalhei – moldando suas canções.

É difícil pra mim escolher uma de suas canções como a favorita. “Sin City”, do primeiro álbum dos Flying Burrito Brothers, é demais. Eu amo “I Can’t Dance”, do disco GP. Mas você nunca terá um retrato completo dele com apenas uma ou duas canções.

Mick e Gram nunca se toparam, principalmente pelo fato do Stones ser uma coisa tribal. Ao mesmo tempo, Mick estava ouvindo o que Gram fazia. Mick tem orelhas. Às vezes, enquanto fazíamos o Exile on Main Street na França, nós três passávamos horas tocando algumas músicas do Hank Williams enquanto esperávamos o resto da banda voltar. Gram tinha o maior repertório de músicas country que você pode imaginar. Nunca lhe faltavam canções.

On tour with stones

As drogas e a bebida – ele não era pior nem melhor que o resto de nós – só cometeu um erro fatal tomando aquela dose depois de estar limpo, pensando que aguentaria da mesma forma que aguentara antes. E foi uma puta dose. Mas ele não entrou nas drogas por nossa causa. Ele conhecia essas coisas antes de sermos apresentados.

Eu acho que ele estava começando a dar suas passadas largas quando morreu. Seu material atual – o número de discos que gravou e vendeu – era mínimo. Mas seu efeito na música country foi enorme. É por isso que estamos falando dele agora. Mas não podemos saber o real impacto que causaria. Se Buddy Holly não tivesse pego aquele avião, ou Eddie Cochran não tivesse virado na esquina errada, pense que tipo de coisa nós poderíamos esperar, escutá-las agora seria fenomenal.

De um jeito, é um tipo de amor perdido. Gram era tudo que você queria em um cantor e um compositor. Era divertido tê-lo por perto, era ótimo tocar com ele. E aquele filho da puta podia fazer garotas chorar. Nunca vi outro homem fazer as garçonetes velhas do clube Palomino em Los Angeles  chorar como ele fez.

E estava tudo no homem. Sinto muita falta dele.

Keith Richards,15 de abril de 2004

link: http://www.rollingstone.com/news/story/7249933/the_immortals__the_greatest_artists_of_all_time_87_gram_parsons

traduzido por hpompermaier para Folklore

Entrevista com Pete Seeger

Pouco se fala de Pete Seeger por aqui. Sabe-se muito pouco sobre um dos maiores compositores americanos – que influenciou centenas de artistas consagrados nos anos 60. Por isso, resolvemos traduzir uma ótima entrevista feita pelo jornal San Francisco Chronicles na semana passada, dia 13 de setembro. Segue o texto abaixo:

Pete SeegerPete Seeger aos 90, “Sem mais prêmios, por favor”

Pete Seeger, comunista convicto e inimigo do estado, se apresentando na cerimônia de inauguração do presidente dos EUA? Com 90 anos, ele viveu pra ver e diz nunca ter imaginado que tal situação poderia acontecer.

“Absolutamente não imaginava. Antes, eu até tinha ganhado um prêmio Kennedy que me possibilitou ir até a Casa Branca cumprimentar o presidente. Entretanto, existiam muitas coisas importantes que queria ter dito a ele – e não pude dizer naquela ocasião,” diz Seeger pelo telefone de sua casa, localizada no vale do Rio Hudson.

Esta é uma temporada de prêmios para o velho tocador de banjo. Depois de ter aparecido com Bruce Springsteen, no Lincoln Memorial, antes da inauguração de Obama, Seeger esteve em uma festa de aniversário na Madison Square Garden tocando com Springsteen, Joan Baez, John Mellencamp, Dave Matthews, Emmylou Harris e outros, um evento de gala filmado e transmitido pela PBS.

Ele foi o assunto de um documentário recente, “The Power of Song”, tocou como a principal atração do festival de Jazz de New Orleans deste ano,  e também se apresentou no aniversário de 50 anos da edição do festival de folk de New Orleans. Na semana do dia do trabalho, recebeu o prestigioso Prêmio “Gish Award” –  os ganhadores anteriores foram Robert Redford, Bob Dylan, Arthur Miller e Frank Gehry -  cujo  vencedor leva duzentos mil dólares pra casa. Apareceu também no Masonic Auditoriom com os filhos e netos de seu velho parceiro Woody Guhtrie, e dois dias depois se apresentou no Monterey Jazz Festival.

Seeger não é deslumbrado. Tende a ver esses prêmios como imposições. Ele está mais para um velho desconfiado do que para o perfil tradicional de um doce avô.

“É o período mais difícil que eu e minha mulher já vivemos”, diz ele. “O carteiro vem mais ou menos com um alqueire de cartas. O telefone toca a cada cinco minutos. Eu sabia que seria um problema, mas não dimensionava o tamanho. Não temos tempo livre. Agora estou mandando cartas padrão. ‘Dear Dash’ – e escrevo seu nome – “Obrigado pela sua carta, mas a carta formal é a única forma viável, não tenho tempo para escutar o CD que você mandou para ouvir, o livro para ler, o DVD para assistir e o convite para receber algum prêmio. É mesmo meio louco.”

“Ele odeia”, diz Tao Rodriguez, de 37 anos e seu primeiro neto – que viaja e toca com seu avô desde que tinha 14 anos de idade. “Eu tento deixar ele longe dessas coisas o máximo que posso. Alguém quer combinar um horário com ele, ele diz, “Por favor, eu já tenho muitos horários a cumprir – por que eu precisaria de mais um?”Ele é mídiafóbico.

Em sua apresentação em São Francisco, Seeger fez parte da Guthrie Family Tour, um evento musical que traz mais de três gerações dos Guthries cantando as canções do patriarca da família, Woody Guthrie. “É a primeira vez que nós fazemos isso desde 1984”, diz a neta mais nova, Sarah Lee Guthrie, direto de sua casa no oeste de Massachussets. “Eu tinha 5 anos e nunca vou esquecer. Quando meu pai (Arlo, filho de Woody) foi para a turnê nos anos setenta e oitenta, não existiam mulheres ou crianças na estrada. Nem ao menos cachorros.”

Sem respostar curtas

Com Pete Seeger, até uma questão do tipo “Como vai você?” é totalmente explorada.

“Na maior parte dos dias minha memória não é boa como antes”, diz ele, “então estou esquecendo coisas o tempo todo. Pelo outro lado, a vida continua fascinante e acho que a luta para ver se existirá raça humana nos próximos cem anos é a mais importante luta do mundo. A chance é de 50%, você sabe. Entretanto, eu confesso que estou um pouco mais otimista do que como estava depois de Hiroshima. Eu disse que tínhamos chances de 50%, mas disse principalmente para encorajar as pessoas que seus pequenos grãos de areia podem ser o necessário para direcionar o mundo em uma direção correta. Eu acho que ainda digo isso pela mesma razão. Sessenta anos atrás eu pensei que, em vinte ou trinta anos, algum idiota iria soltar uma daquelas grandes bombas e mais bombas viriam. Se não fôssemos mortos, seríamos envenenados pela desavença. Mas uma coisa boa foi acontecendo depois da outra. O movimento civil tomou seu lugar. O movimento feminista está muito bem e colhendo seus frutos. A coisa mais importante é que não são centenas, mas, literalmente milhares de pequenas coisas boas acontecendo em nosso país. Um dos meus slogans, para repetir o que o grande biologista René Dubos disse é: “Pense globalmente, aja localmente.”

Muitos erros

Pete Seeger“É verdade que as pessoas da minha idade cometem muitos erros e naturalmente se tornam pessimistas. Eu cometi muitos erros, um grande número deles. Eu estive por aí cantando em algum lugar e deixei minha esposa cuidando dos três bebês, sozinha.  Se os cachorros latissem, ela não saberia se era algum homem que poderia causar problemas. Até nós conquistarmos um patamar decente e termos dinheiro para viver bem, ela caminhava 150 jardas desfiladeiro abaixo com um bebê nos braços e outro agarrado em sua blusa, e ainda carregava um balde de água para cozinhar e lavar. Ela é uma heroína. Cometi muitos erros, milhares deles.”

“Do outro lado, tentei estar bem de saúde. Aprendi em um provérbio Árabe quando estive no Líbano uma vez. Árabes se orgulham que o mundo usa números arábicos. Nós não usamos numerais romanos ou chineses. Nós usamos numerais arábicos. Se você tem boa saúde, coloque o número um. Se tem uma família, coloque um zero. Quão sortudo você é. Se você tem um terreno, coloque outro zero. Família, terreno – que mais você poderia querer? Bem, se você tem uma boa reputação, coloque outro zero. Você tem tudo. Mas tire o número um, com quê você fica? Três zeros. Boa história para as pessoas saberem. Eu conto ela sempre onde passo.”

“Se não fosse pelo meu estado mental… Eu estou em melhores condições que a maioria das pessoas de 90 anos porque faço muitos exercícios. Nós aquecemos nossa casa com madeira, então estou sempre cortando e dividindo lenha. Minha ideia de alguns bons minutos é olhar pela minha janela e ver alguns pedaços para cortar – e vou lá e corto. Está em nosso DNA gostar de golpear. Há três milhões de anos estamos andando sob dois pés. Foi quando começamos com clubes de dança, a matar animais e matar nossos inimigos. Não é acidental que esportes como golf e baseball são populares no mundo todo.”

Seeger não se importa de saborear a ironia de ter saído da lista negra e ter ido parar na lista vip. “Eu estive na lista negra na maioria dos anos 50 e grande parte dos 60. De certa forma, ainda estou nela. Não me oferecem programas de televisão, coisas desse tipo,” diz ele. “Para que servem, eu não sei. Voltando no que chamo de década quente (50’s), era comum. Mas a coisa engraçada é que não me importo. Não gosto de cantar em boates. Não gosto de cantar no rádio e na televisão porque geralmente eles me dizem o que querem que eu cante.”

Ele conta uma história sobre seu aparecimento no “Today show” quando Barbara Walters ainda estava no programa. Ele preparou o que chamava de “uma feliz peça de banjo”, e tinha uma segunda canção que queria cantar, “Garbage”, um protesto escrito em 1969 pelo compositor Bill Steele.  A canção zomba de assuntos ambientais, mas Seeger adicionou um quarto verso nos anos 70 que estende a premissa da canção para uma denúncia feroz contra as corporações e a ganância capitalista. Ele recordou a conversa que teve com o produtor antes de cantar “Garbage”

“ ‘Pete, é meio cedo para isso. Tem algo mais?’ ”

Pete cantou, “When te revolution comes to my country…”

“ ‘Pete, você tem alguma outra coisa?’ ”

“Walkind down death row…”

” ‘Bem, Pete, eu acho que ficamos com ‘Garbage’. O estúdio todo veio abaixo. Os câmeras disseram ‘Sim, melhor ficarmos com Garbage.’ “

.

No auge de seus 90 anos, Seeger nos presenteia com uma entrevista esclarecedora. Fica a dica, é um bom aperitivo para começar a compreender uma das maiores cabeças pensantes da música americana.


link direto:http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/c/a/2009/09/11/PKO919ICCL.DTL


Postado por hpompermaier para Folklore

A lenda do cowboy solitário

Há 86 anos surgia um dos maiores compositores do século XX. Hiram King Williams nasceu (em uma cabana de madeira) na cidade de Garland, estado do Alabama.  Teve uma infância comum até completar 10 anos de idade, brigas na escola, almoços de domingo, confraternizações com os primos: vida de garoto interiorano.

Sua família mudava de cidade frequentemente e, por isso, quando Hiram completou 10 anos de idade, decidiram que o menino iria morar na casa de seus tios. Essa singela mudança de ambiente foi responsável por traçar novas linhas na história da música americana.

Tia Alice tocava guitarra e Tio J.C Mcneil bebia uísque. Ela ensinava-o a tocar guitarra, enquanto Tio Mcneil ensinava-o a beber o malte escocês. O resto está escrito na história. Aos 17 anos de idade pegou o violão de sua tia e se apresentou na frente de uma rádio local. Produtores viram, gostaram, ele ganhou um programa na rádio (15 minutos/2 vezes por semana) e um salário considerado bom para os padrões da época.

Pulamos para o final da década de 30. O programa da rádio ganhou fama e ele resolveu mudar seu nome para Hank, achava que Hiram não funcionaria na indústria musical. Conseguiu juntar dinheiro suficiente para investir em sua própria banda, a Drifting Cowboys.

Com a Drifting Cowboys viajou por alguns estados americanos até 1941. Hank era conhecido como “a voz de um milhão de dólares”, um tipo de celebridade local. Extremamente carismático, caiu rapidamente na graça do povo americano e já emplacava mais de 10 hits na parada de sucessos. Com a segunda guerra fervilhando, todos os integrantes da banda foram convocados para servir o exército e Hank, não. Um problema congênito na coluna o salvou do campo de batalha.

Começou a beber mais que o habitual. As lições do tio Mcneil surtiram efeito.

Nos final dos anos 40 voltou a atingir o topo das paradas americanas. Com os antigos membros da Drifting Cowboys, apresentou-se no programa Grand Ole Opry (famoso programa de rádio americano) e seu nome voltou a aparecer no topo das listas musicais. Hank assinou com a MGM records e emplacou mais alguns pares de hits.

Bebia mais e mais. Foi demitido do programa, os produtores alegavam que seu estado de saúde estava péssimo. Devido ao problema de coluna, Hank também estava viciado em morfina e outros tipos de vitaminas e calmantes.

No início da década de 50, sob o codinome de “The Drifter” lançou diversas músicas religiosas. Tinha medo de não ser aceito como Hank Williams – por isso a troca de nome. Paralelamente emplacava sucessos com suas canções tradicionais – aí sob a alcunha original.

Em 1953, Hank morreu com 29 anos. Iria viajar, mas perdera o avião naquele dia devido a problemas metereológicos. Contratou um chofer para dirigir seu carro e pediu que lhe aplicasse uma injeção de morfina.

Morreu sentado atrás de seu carro, com ele estavam duas latas de cerveja e um manuscrito de uma composição inédita.

Sentimos falta da singeleza dos versos de Hank nos tempos de hoje. Vivemos em um mundo sintético e barulhento, artificial. Escutamos barulho no trânsito, no trabalho, nas rádios, na televisão. Hank foi um poeta moderno, cantou os dilemas da vida como poucos fizeram. Sofreu – também – como poucos.

Conseguimos sentir cada tonelada que ele carregava nas costas quando nos deparamos com uma canção como essa:

Take these chains from my heart

“Take these chains from my heart and set me free
You’ve grown cold and no longer care for me
All my faith in you is gone but the heartaches linger on
Take these chains from my heart and set me free

Take these tears from my eyes and let me see
Just a spark of the love that used to be
If you love somebody new let me find a new love too
Take these chains from my heart and set me free

Give my heart just a word of sympathy
Be as fair to my heart as you can be
Then if you no longer care
For the love that’s beating there
Take these chains from my heart and set me free

Take these chains from my heart and set me free
You’ve grown cold and no longer care for me
All my faith in you is gone but the heartaches linger on
Take these chains from my heart and set me free.


Hank Williams


Escutem Hank Williams, pesquisem Hank Williams, vivam Hank Williams. Será que não é hora de rever as fontes e cantar algo novo?


Postado por hpompermaier para Folklore

Falando em referências

Bob Dylan é fã declarado de Woody Guthrie.  Somos fãs declarados de Bob Dylan. Ser fã implica conhecer e admirar a obra de quem estamos ouvindo/lendo/vendo. A premissa básica para entender um artista é conhecer o contexto histórico que ele está inserido quando produz suas obras, sejam elas discos, músicas, poesias, livros, pinturas, etc.  A partir daí podemos formular pensamentos e conjecturar alguma coisa sobre a obra em questão: uma letra aqui, um tom de azul acolá. Enfim.

Quando pensamos no processo de criação desse artista, uma pergunta sempre aparece: Quem esse cara ouvia, lia, assistia? Quais suas referências criativas? Quem é o ídolo desse cara?

Vamos aos fatos:

Woody cantou o protesto de sua época: a luta por igualdade, por direitos trabalhistas e entoou diversos cânticos anti-fascistas durante a segunda guerra mundial. Dylan? Dylan cantou a luta por direitos civis e uniu a juventude americana na luta contra o fim da guerra do Vietnã. Woody escreveu centenas de poemas durante sua vida. Escreveu novelas também. Dylan lançou o livro Tarântula em 1971 e recentemente Crônicas Vol.1 – sua autobiografia. Woody lançou dezenas de artbooks, pequenos livros que continham cartoons e canções ilustradas.

Não pára por aí.

Dylan, em 1994, também (veja só) lançou um livro de desenhos, entitulado “Drawn Blank”. Aliás, sua primeira  exposição foi a “The Drawn Blank Series” e aconteceu em um museu alemão no final de 2007, estando ao lado de obras consagradas de Munch e Picasso.

Dylan respirou Woody Guthrie. Comeu e digeriu Woody Guthrie. Se você estiver disposto a escutar um disco de Guthrie, perceberá nuances e também algumas coincidências(?) melódicas entre os dois. O estilo para formar estrofes, palavras, rimas, muito do que Dylan produziu foi inspirado em Woody.

Bob Dylan. Woody Guthrie. Dois nomes compostos, sendo o primeiro um apelido seguido de um sobrenome curto. Robert Zimmerman e Woodrow Wilson Guthrie. Se a reencarnação existe, eis uma prova irrefutável.

Woody Artwork

Woody Artwork

Dylan Artwork

Dylan Artwork


Semelhanças?


Postado por hpompermaier para Folklore

A Folklore

A vontade de dois jovens em realizar um sonho de tornar real o espírito Folk. Transformar tradições, lendas, danças, adivinhações, provérbios, crendices, jogos, poesias, canções e costumes populares em moda. Assim nasceu a Folklore.

Folklore é o retorno às tradições, transita por diferentes gerações, é um encontro, uma alternativa para os contrastes do rural e do urbano, a volta ao campo, ao natural, ao orgânico. UM NOVO PENSAMENTO.

Nasceu embalada pela música Folk, em um mergulho profundo nas canções tradicionais do country americano. As vozes que cantam na Folklore são as de cantores como Hank Williams, The Carter Family, o infinito universo de Bob Dylan, Johnny Cash, dos artistas que estiveram no Newport Folk Festival entre 1962 e 1965, Gram Parson, Emmylou Harris e The Byrds.

Conforto, simplicidade, criatividade, exclusividade e honestidade são valores intrínsecos da marca.

A Folklore não acredita em shopping centers, acredita que as ruas têm vida, que os pequenos comércios são sustentáveis e necessários para uma vida mais harmoniosa nas cidades.

A Folklore acredita no trabalho, na saúde, na arte e no respeito pelas diferenças entre as pessoas. Acredita em um novo pensamento, acredita em um novo mundo.


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